sábado, 12 de setembro de 2026

As marcas que a infância deixa em nós

Algumas experiências passam, outras permanecem como aprendizados.

Quando penso na minha infância, percebo que fazer parte de uma família grande não significava estar sempre acompanhada. Eu era a caçula, e a diferença de idade entre mim e minha irmã mais velha é de quinze anos. Meus irmãos já eram mais velhos, tinham suas próprias vidas, enquanto eu estava começando a descobrir o mundo. Minha irmã mais velha, por exemplo, teve seu primeiro filho apenas um ano depois de mim. É curioso pensar que, enquanto eu ainda era um bebê, já estava me tornando tia.

De certa forma, sinto que cheguei quando minha família já estava formada e eu fui a última pessoa a completar aquele grupo. Meus pais sempre trabalharam muito e, hoje, consigo entender que trabalhar também era uma forma de cuidar da família. Tinham contas, responsabilidades e precisavam sustentar a casa. Mas, quando somos crianças, não conseguimos enxergar tudo isso. Eu não entendia as preocupações dos adultos. Eu apenas sentia falta deles.

Meus pais pagavam uma pessoa para cuidar de mim. Essa pessoa também tinha três filhos pequenos e cuidava de todos nós. Eu tinha companhia, mas não era a mesma coisa que ter minha mãe e meu pai por perto. Enquanto meus irmãos já tinham suas próprias atividades e suas vidas acontecendo, muitas vezes eu ficava sozinha. Foi assim que aprendi, ainda pequena, a lidar com a minha própria companhia. Aprendi a esperar, observar e encontrar maneiras de passar o tempo.

Com o passar dos anos, percebi que aquela experiência também me ensinou algo importante: ser independente não significa não precisar de ninguém. Uma criança pode aprender a ficar sozinha e, mesmo assim, continuar precisando de colo, atenção, carinho e presença. A ausência pode ensinar algumas coisas, mas a presença também deixa marcas importantes na formação de uma criança.

Por isso, quando lembro da minha infância, não quero culpar meus pais. Hoje consigo reconhecer o esforço que fizeram e entender que estavam tentando cuidar de nós da maneira que conseguiam naquele momento. Essa compreensão só veio com o tempo. Quando somos crianças, sentimos primeiro e entendemos depois. Hoje, ao olhar para aquela menina, consigo enxergar não apenas aquilo que faltou, mas também tudo o que meus pais fizeram para cuidar da nossa família.

Talvez seja isso que faço hoje ao olhar para minha infância: não procuro culpados, procuro compreender. Compreender quem eu era, quem eram meus pais e como tudo aquilo ajudou a formar a mulher que sou hoje. Aquela menina que muitas vezes se sentiu sozinha também me ensinou o valor da presença, do carinho, da atenção e do diálogo.

Hoje, como mãe, percebo ainda mais a importância de estar presente na vida dos filhos. Talvez porque eu saiba o que é sentir falta. Não significa estar disponível o tempo todo ou conseguir fazer tudo perfeitamente. Significa estar presente de verdade nos momentos que importam, ouvir, conversar, demonstrar carinho e fazer com que os filhos saibam que podem contar conosco.

Não podemos mudar aquilo que vivemos, mas podemos escolher o que faremos com essas experiências. Podemos reconhecer nossa história, aprender com ela e decidir o que queremos levar para a próxima geração. Minha infância não foi perfeita, mas faz parte de quem sou. Foi nela que comecei a aprender sobre família, ausência, presença e amor.

Hoje entendo que algumas marcas da infância não precisam permanecer como feridas. Elas também podem se transformar em consciência, escolhas e cuidado. Olhar para o passado não significa viver nele. Às vezes, significa apenas compreender o caminho que nos trouxe até aqui e escolher, com mais consciência, o caminho que queremos seguir daqui para frente.

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